Do Sândalo a Santa Cruz
Já fazia tempo que eu não sentava para escrever num blogue. Decidi voltar porque acredito que os amigos e leitores anônimos que me acompanharam nas histórias coreanas se interessariam em ler um pouco do que tenho aprendido aqui no Timor-Leste. Vou começar com uma parte da sofrida história leste-timorense. Para os que já conhecem o país, é um arroz com feijão básico. Mas para os amigos que, não fosse este blogue, não saberiam bem o que se passou por aqui, é essencial.
Para o brasileiro average que ao menos sabe que existe um país chamado Timor-Leste, a única informação retida é que se trata de um pequeno país asiático - quando não acham que é africano - que fala português. Ainda assim, essa única informação é parcialmente falsa. O Timor-Leste foi, sim, colonizado pelos portugueses, mas hoje, ainda que uma das línguas oficiais seja a portuguesa (ao lado do tétum), estima-se que apenas 10% da população de fato a fale fluentemente.
Resumindo quase 500 anos de história (documentada), os portugueses aqui chegaram pela primeira vez entre 1512 e 1515 (a data exata é incerta). Dividiram a ilha de Timor com os holandeses, que ficaram com a parte oeste. Foi uma colonização pacífica, pois o governador português coexistia ao lado de pequenos reis tribais (os chamados “liurais”). Esta pequena colônia foi mantida pelo sândalo que havia aqui em abundância, e pela localização geográfica. No entanto, não investiram muito em infra-estrutura e o Timor Português (como era chamado) nunca foi uma das prioridades de Portugal.
Não surpreendentemente, quando houve a Revolução dos Cravos em 1974 em Portugal - duas décadas após a breve, porém violenta, invasão japonesa à ilha durante a Segunda Guerra - os timorenses começaram a planejar seu futuro independente. Em novembro de 1975, a FRETILIN (Frente Revolucionária de Timor Leste Independente) declarou a independência. Mas a alegria durou apenas 9 dias: a Indonésia, apoiada pelos Estados Unidos, que temiam o surgimento de mais um país comunista no auge da Guerra Fria, invadiu o Timor-Leste, que passou a ser chamado “Timor Timur” (apelidado Tim-Tim) e se tornou a 27ª província indonésia.
Os anos que se seguiram se tornaram a parte mais sangrenta da história timorense. O uso da língua portuguesa foi estritamente proibida, milhares foram mortos por resistirem à invasão, e outras centenas de milhares tiveram que fugir para outros países ou se esconder nas montanhas do país, passando fome e frio. Basta conversar com timorenses com mais de 40 anos, e eles te contam detalhes do que sofreram durante todo esse tempo.
Mas o que mais doeu para o povo timorense foi o descaso. O único país que protestou contra a invasão indonésia na ONU foi Portugal, enquanto o resto do mundo fechou os olhos e ignorou a violência que ocorria por aqui. Nem mesmo o Vaticano deu muita bola. Timor-Leste é um país católico, mas sua população muito pequena. Portanto não interessava ao papa criar tensões com um gigante indonésio para ajudar um país tão pequenino.
Tudo começou a mudar, quando, em 1991, pela primeira vez, um massacre foi filmado pelo jornalista britânico Max Stahl, que conseguiu sair do país com o filme. Um estudante havia sido morto por soldados por protestar contra a Indonésia, e seu enterro acabou se tornando um grande protesto, barulhento mas pacífico, pela independência do Timor-Leste. Quando chegaram ao cemitério Santa Cruz, em Díli, os militares indonésios atiraram em todos os que participavam do enterro. Cerca de 250 pessoas morreram nesse dia. O jornalista conseguiu sair do país, mas deu o filme que gravou para uma holandesa, pois ao chegar na Austrália ele foi revistado, a pedido do governo indonésio. Felizmente o filme chegou até à Inglaterra e se tornou um documentário transmitido no país, despertando ativistas pelo mundo todo que se solidarizaram pelo Timor-Leste e fez o movimento pela independência ganhar força. Só então os Estados Unidos, o Papa João Paulo II e a ONU começaram a tomar iniciativas para tentar ajudar os timorenses.
Parte do vídeo gravado no massacre de Santa Cruz pode ser visto aqui.
Mas a história de sofrimento não acabou por aí. Com a queda do ditador indonésio Suharto, finalmente um referendo foi realizado em 1999 para decidir o futuro leste-timorense. Como o resultado foi de mais de 80% a favor da independência, as milícias indonésias, em retaliação, mataram centenas, queimaram casas e destruíram tudo o que puderam pelo país todo. Até hoje muitas dessas casas destruídas podem ser vistas nas vilas.
Depois da administração provisória da ONU, pelo brasileiro Sérgio Vieira de Mello, o Timor-Leste finalmente recuperou sua independência em maio de 2002. Em 2012 teremos aqui pela terceira vez após a independência, eleições nacionais. E eu estou trabalhando como UNV apoiando a organização. Só que desta vez, o comando é timorense, não da ONU, pois a missão de paz está programada para terminar ao final do próximo ano e o país precisa ser capaz de andar com as próprias pernas. Dedos cruzados para tudo correr bem…